Entre os cinzas catando brancuras
Eram pinceladas sobre pinceladas e os tons se misturavam numa dissonância sempre a engedrar cinzas, cinzas, e mais cinzas sobre aquela tela muda, pálida, o pincel parecía disparar como uma arma contra aquele corpo inerte., pálido , as cores se digladiavam em batalha frenética, olheiras cansadas, vincos enrodilhados incendiavam e apagavam lumens, pinceladas quebradas construiam aguas furtadas, mansardas esconderijos se entrelaçavam, se esbofeatavam, manchas abriam a carne da tela em profundas valas, abismos vociferavam dos rastros das pinceladas , serpes se enovelavam entre a fiação dos galhos dos troncos, o vento urrava o que não podia conter, a pintura não conseguia falar, a adaga do pincel havia perfurado o eter ... agora, so' se ouviam sons muito distantes, gorjeio de crianças brincando, segurando candidas aguas numa peneira, assobios de passaros em flautas vespers entoando à poesia fiando leveduras, formigas ensinando Sisifo a carregar a pedra, escutou o riso do poeta Manoel (de Barros )ele estava lá, sem ser percebido, segurando uma lanterna de lumens , entre os cinzas catando brancuras pincelando nela coachos numa noite dos séculos ...sem nunca morrer!
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