Retrato em branco
A tela branca e o remoinho de reticências parecia respirar um poema morto, tintas que morriam repetiam a nudez e esta não sincronizava com algo que agora emitia uma luz nada bruxuleante e não era vagante este lumiar , ela assentiu estar no habitat do misterio , aquele que não encobre os ciclopes, as Circes que embatem nas curvas dos pelagos da viagem, lembrou de Odisseu, sentia estar- se, apenas precisava pintar mas o desenho se dissolvia na tela do olhar, a luz crepitante desaparecia e o borrado como nuvens pesadas e ameaçadoras descia sobre a face fugidia que mirava, quem és tu indagava, por que vens até esta janela com essa sombra escura como o corvo de Poe, seria de bom alvitre pensou buscar o oráculo e saber por que Zeus persistia com a escuridão para cegar os homens a viver no breu ....sentiu os gritos atordoantes do manicomio de Saramago no ensaio dos cegos, certamente não vemos nada pensou, animais ditos racionais são ainda embrionários de civilizações e camas quânticas com sintomas abertos de um abissal escuro.... era um deles, enquanto observava a tela em branco o instante lhe evocava das multiplas disfunções de identidade que a cegueira pode acometer ao homem, sentiu um frio gélido percorrer os degraus das vértebras, seriam essas múltiplas faces de cada dia uma folha de seu rosto, indagou-se, encostou-se sobre a árvore do tempo, agora era ausência por um instante como na tela em branco à sua frente, sentia penumbrar no recondito da caverna, era sombra doída e faminta, talvez aquele retrato em branco no cavalete não fosse uma mancha cega no rio de Heraclito quiçá fora do breu....abocanhou a noite das tintas.