Olhava a bagunça sobre a bancada, xícaras sujas, cascas de frutas esparramadas, o mesmo chá daqui a pouco por fazer, esperar a cuba da pia esvaziar lentamente, impiedosamente no seu ritmo, buscar na geladeira o que enganar o estomago em guerra...nunca saciavel, rasgou um silêncio cáustico, tudo se contorcia, era mais um dia de se auto carregar. Como pesavam as coisas em derredor, sentada na banqueta engolia o suor cáustico da vindima bruta. Estava no seu instante e não estava, queria que as horas não pesassem assim, seria porque o tempo de ilusoes acabou ou vive-se nele sempre acabando, os dias dão calafrios quando se encara a face real da propria escrita
de cada verso no sangue. Escrita repetivel todos os dias quando as nuvens pesam e a tempestade nao tarda. O que o olhar de um escravo, prisioneiro , aprendiz no corpo pode querer senão o céu azul da liberdade, do amor chão de terra a terra em concupiscencia com a alma... Ela olhou a janela e escutou o azul pinçado entre cinzas e negrumes. Quem sabe essa escuta a levasse ao tempo em que a crença fosse na eternidade falível de algum instante e quantos instantes lhe foram eternos e amargos, outros lirios,trincha larga e a tela acabara de ser pintada de um profundo fundo preto azulado pra nao esquecer da voz
azul de um dia ,algumas pinceladas de cinza nos cabelos, um corrego de aguas cristalinas e lá estava ele, o instante, sentado a beira do corgo escutando a voz de suas águas, discreto, sómente ele, para ele., instante , se reconhecendo na paisagem ....