Um dia de árduo sol, de vestido floreado com cianinhas em redor dos bolsos, costurado pela mãe, a menina Zocha sai de bicicleta nova, que não era aquela dos seus sonhos mas era uma bicicleta, e não por acaso inexistente, sua marca era ciclone e saiu a rodar pelas ruas da vila. E muito rodou e muito experimentou , o ar das borboletas, o vento passarinho assoviando no ouvido, desmanchando a trança farfalhando as cortinas da cabeleira ,o olhar em êxtase de alegria em seu pequeno mundo de sentir a dança sinuosa da ciclone, de ver de relance as maricotas fofoqueiras proseando em seus portões e assim as ruas eram palcos, sempre com diferentes espectadores, toda rua é um palco onde os personagens vivem e sobrevivem em seus papeis, as praças grandes teatros... E ia dançando pelas ruas da singela vila , sonhos acordados, sorriso largo de arlequim feliz, nada sabia sobre Sócrates nem de Platão , so' sobre Jesus, quem sabe ele estivesse brincando com ela pedalando sua bicicleta junto,fazendo companhia, quem sabe, talvez alegre como ela, de sorriso largo no continente da boca de um hemisferio a outro , agora pareceriam corredores sob aplausos de olhares perscrutantes que encontravam pelo caminho, e la iam eles, descortinando fronteiras, subindo e descendo ladeiras, serpenteando curvas sol a pino, sardas explodindo como vulcões no rosto, trança desmoronando e foi assim que numa curva traiçoeira a voz do vento gritou alto como o trovao, e a sinuosidade da linha de fogo da armadilha do sonho desenhou o borrao de uma derrapagem quase tragica, a tinta vermelha de sangue jorrou dos sonhos de uma criança, conhecer a tocaia de um bueiro impiedoso na curva do sol, mas, alguns instantes depois, entre os escombros das rodas da bicicleta e canos retorcidos foi encontrado um estranho pedaço de uma viga de madeira e foi esta que impediu que o singelo passeio tivesse sido letal.