Da cama vira-se e vê na superficie do criado mudo um pequeno besouro caminhante como numa planicie rumo ao beiral do movel . Ele anda lentamente sobre o plano superior do bidé como num imenso campo, pára, segue em linha reta, vira em curva, revolve as antenas como a buscar um itinerario e se descobre em derredor de uma pequena garrafa d'agua mineral, como um farol na paisagem, entretanto, não o escala , caminha como estar buscando por algo em terra, uma trilha, uma direção, afinal já esteve diante e proximo de tantos perigos e assombrado retorna e agora
volta a pontilhar suas passadas em linhas quebradas e de repente se vê diante da ponta da superficie do mobiliário e pára observando o precipício. As antenas tremulam não arrisca nenhum passo o que seria fatal se nao puder valer-se das asas.Fica ali a contemplar o abismo movendo as antenas como a coça-las na sua inquieta caminhada de inseto , é apenas um besouro ,não um escaravelho, não traz genealogia real , é franzino, um ser infimo e a imensidão à sua frente além da ponta da planicie ou do beiral do criado mudo é desconhecida e pode ser letal. Fica assim às bordas do precipício com as antenas quase em hélice mas não tem como ousar enfrenta-lo,não tem a graça e a sabedoria das abelhas ,nao tem missão, é um comedor de pulgões, de ossos de mosquitos, caminhante entre flores e espinhos e luta para sobreviver às teias e intempéries, faz meia volta sente algo estranho diante daquela imensidão insolita à sua frente e decide escalar à garrafa d'agua azul, ela é trasparente, consegue ver sua própria sombra refletida, quer enxergar o que há adiante,o que há dentro,tem curiosidade, esta acostumado à escarpar ingremes costados mas, do farol o universo pode ser diferente, quem sabe possa ver mais de perto as estrelas, ou até ouvi--las como Bilac, ou conta-las como fazia o poeta com sua lata de vagalumes que deixou cair no rio....- Estou te ouvindo- escuta uma voz roufenha, a vida é assim esvaziante, continua, continua,completa a voz e o inseto a reconhece, ,pára por instantes, cruza novamente suas antenas uma sobre a outra , a voz lhe remete a uma dolente nostalgia, mas, como ver além da neblina, como decodificar o atordoante sonido da saudade , está só naquela aventura e nem lembra como chegou até ali, foi caminhando, irrompendo por entre páginas da natureza que nunca conseguiu entender que encontra aquela súbita torre no caminho... A cada volta avista o que nunca tinha enxergado antes, e assim segue cansado , deslumbrado com que vê ao escalar a pequena garrafa de agua e consegue finalmente chegar quase ao cume ,saga, dali pode ver sombras dantescas de coisas que nunca vira antes, onde estaria, o que seria tudo aquilo e percebe que há mais um elevado a subir, é o gargalo da garrafa. Nao titubea num instante esta no cume do farol, onde há a rotação da grande lanterna e suas lentes,não traz nenhuma flor para fazer um discurso como Buda, só o cansaço , fica extasiado ali no topo ,no cume sobre a boca aberta da misteriosa da garrafa,
um poço que reflete o céu, tem o perigo do labirinto interior, agora as antenas o abraçam, o inseto contempla a imensidão, dali pode enxergar o que os humanos nao conseguem ...