Apenas um balcão separando um ambiente e um balcão pode se erguer como uma muralha a separar cidades, milhões de pessoas, e quem se dá conta de pensar sobre um balcão como um grande obstaculo, uma linha de fronteira perigosa, entre nações, destinos, uma muralha que pode estar demarcando o invisivel rosto do imponderavel. O que um singelo balcão divisório de uma grande cozinha poderia representar senão ser ele mesmo um ser semovente, sujeito a mudanças de lugar pela vontade de quem pertence. Sei o que está pensando, ela me olha tristemente,o que está sentindo me diz dolentemente. Refaço o desenho do imenso retangulo negro no papel da memória, suspiro. Os cães latem, é noite, é dia, o tempo não coalha, sempre dilata os poros. Na lousa escrevo um poema, aspira o frescor poroso dessa terra, o mestre me diz é simbolista, as letras brancas brilham e refletem a verdade e a mentira também, nem toda palavra é desnuda, sempre desova vestindo e ocultando abismos, o balcao é branco e negro entre folhas amarelecidas , enlutadas... De que lado da história voce está sentado, no claro escuro da bancada ela me pergunta , as vezes frente a frente na linha hedionda com a .miseria abissal rastejante da dissonancia dividindo a mesa, o pao, a alma, os frutos da ira, da dor, com a mais abominavel máscara do tempo a sua frente e do meu anverso respondo, ainda é vida... amasso o papel, outro desenho ...