Ela deixou crescer os cabelos, longos cabelos acastanhados em redoma do tempo. - Por que me olhas assim? Estou frente ao espelho, tenho pouco tempo para me arrumar, subir a ladeira pegar o onibus e a ansiedade é incontida, tenho que ir....A outra ri , tem o rosto coberto de sardas e aquela trança que ainda nao sabe fazer sozinha....- Vais onde com essa cara toda lambuzada,pergunta ....Olho-me mais próxima ao espelho, tenho algumas espinhas, e alguns cravos de aniz entre o tempo e o vento nas encostas do nariz mas, saboto com cremes, ainda não pisei o subterraneo onde se engastam os pés nas falsas medulas, ainda tenho o sorriso como portal dos meus ossos, embora o vento tenha destelhado meus girassois e haja perdido algumas de suas paginas nesta adolescencia tao espumante de angustias ....- O que te importas ainda tanto comigo retruquei ...ainda tens muito tempo antes de menstruar, aproveita teus balões de papel de seda, tuas pipas geometricas, vais calçar os sapatos de salto alto da mãe, por o sutiã com enchimento como sempre fazes quando ela se ausenta, contar as estrelas do. céu como sempre como contas os pirilampos.....ainda foi ontem e tu não entendias porque o pai sempre ausente.....vi que ela começou a chorar....- por favor, assenti, não quero que chores, tenho que ir.... - Espera, colocou a mão sobre a minha.Tenho medo que tu sofras...disse-me com voz embargada.... - E vais sofrer ! Gritou a outra mais adiante de nós. - Como ousas falar isso! Repliquei. Quem és tu! - Estou há alguns passos de ti e não tão longe daquela que chora. Este choro tem razão de ser. Ela sabe muito sobre ti.- Como! ela é uma criança, nada sabe da vida a nao ser andar na sua ciclone pela vila pedalando o tempo, tecer com linhas e soltar pipas e balões e....argumentei.- Ela nunca te abandonará...-completou a distante. Suspirei e virei-me me novamente ao espelho, olhos fundos, face abatida, abismos, muitos portais ,pele descamando, o peso das horas, o
labirinto dos dias, esta camara secreta, oh delírios de quantas cuspidas em meu rosto não me salvei, estava cansada de ser forte, quando senti algo muito próximo à mim.. virei-me, um tufão, um sopro, não sei, algo passou correndo ...ao longe uma fita branca vejo.... ao chão...