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Sensíveis Cordas!

Textos


imagem/Milton Dacosta
gravura s/papel
Museu de História e Artes do Rio de Janeiro


           Aquela Hora do Ângelus
           
Memoriaisde Sofia/Zocha
            (Carroção do Tempo dos Polacos)



Talvez o menino Quinzinho já tenha chegado em casa, ele sai às cinco horas do grupo escolar Salesiano, na rua Paraíba e a escola não fica mais que dois quilômetros de sua casa na rua Goiás, entretanto, tem a distancia dos hemisférios dos pólos norte e sul pois quase  sempre ele não consegue vencer esse trajeto em curto tempo e sempre perde a hora do Ângelus. Então, quando chega  em casa de volta da escola já repicaram os sinos da Igreja São Cristóvão e o padre Santo já rezou a prece da Virgem pelo auto-falante da igreja  que Zéfiro esparramou por toda a vila. Assim, quando ele  atrasa é porque vagueia perdido pelos labirintos dos bueiros pelo caminho, disputando longas partidas de bolas de búrico e as vezes perdendo todas e depois vem rodeando camuflado entre as toiceras  que serpenteiam a cerca de ripas, morrendo de medo, agachando-se, mirando para ver se a fera mãe está próxima, articulando o golpe a qualquer investida de supresa dela, pois então tudo valerá para a auto-defesa, é só pular dentro das valetas, ou dar um arranque rápido e ela só  verá de longe  aquela terrível franja Curimim ou o reconhecerá pelo reflexo de sua  cabeça pelada com cabelo cortado como ninho de rato ou o reconhecerá  pela   cor do pulôver de tricot azul- se estiver muito frio- porque a esta altura, o guarda-pó  que era amarrado atrás, já virou âncora perdida nessa tempestade.  Entretanto, valham-me os anjos quando o portão abrir-se, aí dele,   atrás virão ecos das varas de pessegueiro e o alarde da sirene pela vila inteira ecoará. Ocorre que talvez a mãe não saiba que quando ele vem de trem da escola ele é o maquinista  e os maquinistas devem ser prudentes sobre os trilhos porque engolem ciclones e apitam por todos os cruzamentos, desviando bueiros, passando pinguelas, contornando vales de terrenos baldios, ouvindo gritos de desespero, janelas se fechando e abrindo, recolhendo transeuntes pelas humildes estações, levando outros de suas estações até em casa, desviando bêbados deitados à frente do boteco da polaca Vanda, do boteco do Nico que cheira álcool na quadra inteira porque desde estação da escola  o trem fará parada por   inúmeras estações, contornará a imagem gigante do padre Santo, do padre Vitório, receberá as  bençãos de Dom Bosco e São Domingos Sávio,   mas, quando ele chegar mais cedo e não atrasar é porque virá de balão correndo atrás das borboletas, jogando com aquelas pedras no ar e saltando pelas valetas para apanhá-los e então o tempo se encurtará e os sonhos também. Mas,  ontem  o trem chegou pouco antes e fez parada obrigatória  na estação da esquina da rua Goiás na morada de madeira,  meia água comprida como um vagão do seu Efigênio crente e da ucraína dona Ludaz -que faz pães gratinados com gemas-  e exatamente quando os sinos repicaram  e  iniciou-se a prece do Ângelus, pode-se ver o velho operário saindo, como saía todos os dias àquela mesma hora com sua bicicleta preta, levando no bagageiro a bíblia sagrada e a marmita de alumínio rumo à fábrica no bairro do Portão, onde era vigia noturno e o menino Quinzinho não atrasara...

 
 
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Lilian Reinhardt
Enviado por Lilian Reinhardt em 27/11/2010
Alterado em 01/12/2010


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